“The Disenchantment of Lisbon — Lisbon is not cool anymore” | Um não-guia turístico de Lisboa

Lisboa já foi muitas coisas ao mesmo tempo: cidade triste e luminosa, pobre e vaidosa, popular e aristocrática, velha e sempre a fingir que acabara de se descobrir num postal. Agora, dizem-nos, é cool. E é aí que começa o problema. Porque quando uma cidade passa a ser cool, normalmente já deixou de ser cidade única, para se tornar cenário, montra, produto, promessa de investimento, fundo de ecrã, hashtag, “experiência autêntica” com reserva online, política de cancelamento e taxa turística. The Disenchantment of Lisbon — Lisbon is not cool anymore (A Reality Guide), publicado pela açoriana Inchas Editora e assinado por Alfredo Isaías — talvez pseudónimo, talvez nome de guerra, talvez apenas o último lisboeta ainda com paciência para caminhar e observar a sua cidade — é precisamente isto: um livro contra o folheto turístico, contra o sorriso plastificado da cidade vendida ao metro quadrado, contra a ideia obscena de que Lisboa deve agradecer por ter sido descoberta por gente que chegou tarde e já trazia o preço da renda no bolso.
O livro apresenta-se como um anti-guia. E é uma excelente definição, porque não nos ensina a encontrar “os dez sítios imperdíveis” da capital. Pelo contrário: ensina-nos a desconfiar deles. Não é um guia para turistas, é um guia de sobrevivência para residentes em vias de extinção e para estrangeiros que amam a autenticidade. Um atlas da perda. Uma autópsia com vista rio. Um passeio a pé por uma cidade que continua lindíssima, mas com aquela beleza perigosa das casas antigas imediatamente antes de serem transformadas em alojamento local, com candeeiros de vime, azulejos falsos e uma planta tropical triste junto à janela. Lisboa não perdeu apenas habitantes; perdeu silêncio, perdeu uso, perdeu rotina, perdeu aquela banalidade maravilhosa sem a qual nenhuma cidade é verdadeiramente habitável.
A cidade que se transformou no seu próprio anúncio
Logo no arranque, o livro The Disenchantment of Lisbon aponta a arma ao centro do problema: Lisboa deixou de pertencer aos seus residentes para se converter numa espécie de conta bancária de alto rendimento para riqueza offshore ou melhor para residentes não-habituais, especulação imobiliária, nómadas digitais, Vistos Gold, fundos de investimento e pequenos empresários da “autenticidade”. É uma frase dura, mas basta atravessar a Baixa, o Chiado, Alfama ou o Cais do Sodré para perceber que a dureza talvez seja apenas uma questão de realismo com boa pontaria. O que antes era vida tornou-se fluxo turístico. O que antes era bairro tornou-se percurso. O que antes era rua tornou-se conteúdo.
Há no livro capítulos que funcionam quase como pequenas estações de uma via-sacra urbana. “Autêntica é a palavra-passe do Wi-Fi” podia ser apenas uma piada, mas é também uma sentença. Hoje, a palavra “autêntico” já não descreve nada: vende. Serve para hotéis boutique instalados onde antes havia vizinhos, para restaurantes com pratos “de inspiração portuguesa”, assinaturas de centenas de chefs e meias-doses que, no tamanho e no preço, já não têm nada a ver com as velhas meias-doses das boas tascas: agora custam aquilo que antes alimentava uma família. Serve para lojas novas que fingem ser antigas com uma nostalgia fabricada em laboratório de marketing. Lisboa, que durante décadas foi acusada de estar atrasada em relação às outras capitais europeias, resolveu modernizar-se da pior maneira: imitando os clichés de todas as cidades que já tinham sido compradas antes dela.
O autor, esse “peão profissional”, caminha e observa. E essa é a grande virtude do livro: não fala da cidade a partir de uma secretária, de uma conferência sobre turismo sustentável ou de uma brochura da câmara municipal feita para promover os pontos turísticos. Fala com os pés. Fala com as solas gastas. Fala como quem sabe que uma cidade se mede pela distância entre a casa e a mercearia, entre a paragem do elétrico e o mercado, entre o café ou a leitaria em frente de casa — onde se vai todos os dias tomar a bica, antes do trabalho — e o vizinho que ainda sabe o nosso nome. Por isso, quando chega ao Elétrico 28, o livro encontra um símbolo perfeito da tragédia lisboeta: aquilo que era transporte público tornou-se atração turística. O elétrico que ajudava velhos a subir colinas passou a transportar visitantes excitados com telemóveis em riste. O residente fica na paragem. O turista entra na memória dos outros, pede o melhor ângulo e, com um bocadinho de azar, ainda fica sem a carteira.
Vistos Gold, nómadas digitais e a nova aristocracia da bica a quatro euros
A parte mais política do livro é também a mais feroz. Alfredo Isaías identifica dois grandes fenómenos que ajudaram a esventrar Lisboa por dentro: os Vistos Gold e os nómadas digitais. Os primeiros funcionaram como uma forma elegante de dizer ao capital estrangeiro: entre, sente-se, compre o prédio, despeje a alma e deixe-nos ficar com a fachada. Os segundos chegaram com computadores leves, salários pesados e aquela inocência irritante de quem diz “amo Lisboa” enquanto procura bem-estar barato, sol, segurança, brunch, internet rápida e a possibilidade de viver numa cidade que, para eles, parece acessível, mas onde cada nova chegada ajuda a tornar a vida impossível a quem cá estava.
Claro que ninguém, individualmente, é o mau-da-fita completo desta história ou deste triste filme. O problema é sempre mais vasto, mais viscoso, mais cobarde. Está nas leis, nos incentivos, na falta de habitação pública, na abdicação política, na conversão da cidade em ativo financeiro, na passividade nacional e municipal perante a velha chantagem: ou vendemos isto tudo ou ficamos pobres. Como se expulsar habitantes locais fosse uma estratégia de desenvolvimento. Como se uma cidade sem moradores ainda fosse cidade. Como se a periferia fosse uma solução natural e não uma deportação com passe social.
Lisboa, escreve-se e sente-se ao longo do livro, criou uma nova saudade: não a saudade romântica de fado, xaile e candeeiro, mas a saudade concreta de coisas simples — tascas sem menu em cinco línguas, mercearias que vendem a peso, farmácias que tratam os clientes pelo nome, cafés onde a bica ainda não precisa de crédito bancário. É uma saudade sem glamour, e por isso mesmo mais verdadeira. A saudade da utilidade. A saudade de uma cidade que servia quem nela vivia antes de seduzir quem nela investia.
O capítulo da “cidade dissecada” é dos mais importantes, porque recusa a visão postalizada de Lisboa. O Chiado, antigo salão literário e burguês, aparece como uma festa de máscaras em nome da riqueza. O Bairro Alto, o Cais do Sodré, Alfama, Mouraria, Graça, Marvila, Belém, Alcântara e o Príncipe Real — e eu acrescentar-lhe-ia Campo de Ourique e a Estrela — surgem como territórios em disputa, bairros onde a identidade foi sendo substituída por uma coreografia rentável: malas, tuk-tuks, brunches, lojas de lembranças turísticas, filas, fachadas lavadas, interiores esvaziados. A cidade parece mais bonita em certas fotografias, mas está menos viva fora delas. Foi restaurada para quem passa, não necessariamente para quem fica.
A resistência da tasca e a ética de não publicar
Mas The Disenchantment of Lisbon não é apenas um lamento. O lamento, sozinho, transforma-se depressa numa espécie de fado municipal e institucional. Há nele uma hipótese de resistência, e ela passa por zonas menos sexualizadas pelo turismo: Campolide, Alvalade, Penha de França, Areeiro, Benfica, São Domingos de Benfica — embora muitas delas já estejam no limite da descoberta. Lugares menos óbvios, menos cinematográficos, menos apetecíveis para quem procura “a verdadeira Lisboa” embrulhada em papel de seda. São zonas onde a cidade ainda funciona pela sua competência discreta: mercados, escolas, cafés, papelarias, farmácias, restaurantes de trabalhadores, vizinhança, rotina. Ou seja, tudo aquilo que não parece extraordinário até desaparecer.
A “resistência culinária” é talvez a ideia mais divertida e mais certeira do livro. Resistir pode ser escolher uma tasca sem inglês no menu, uma casa onde o prato do dia ainda muda conforme o mercado e não conforme o algoritmo ou o Tripadvisor, um restaurante onde a televisão está ligada o tempo todo, o empregado não se apresenta como “host” e o bacalhau à Brás não vem desconstruído em três texturas e uma espuma de coisa nenhuma. A ausência de inglês, neste caso, não é xenofobia; é sobrevivência simbólica. É a prova de que aquele lugar ainda fala primeiro com quem vive ali, e só depois com quem aterrou ontem ou desceu do navio e, daqui a umas horas ou depois do fim-de-semana, vai embora.
Há uma recomendação preciosa: descobrir, viver, mas não publicar nas redes sociais. Senão torna-se viral. Parece simples, quase reacionário, mas é de uma lucidez brutal e uma forma de guardar um segredo ainda bem guardado. No segundo em que uma tasca se torna “imperdível” no Instagram, começa a contagem decrescente para a sua morte ou decadência. Primeiro vêm os curiosos. Depois os influencers. Depois a fila. Depois o aumento da renda. Depois o novo conceito gastronómico. Depois a saudade. O algoritmo é hoje o mais eficaz agente imobiliário da cidade. Não usa gravata, não assina contratos de arrendamento, não aparece nas assembleias municipais, mas mata bairros inteiros com uma eficiência de sniper.
The Disenchantment of Lisbon é, por isso, um livro necessário porque não quer apenas estragar a festa; quer alertar para os convidados, para os penetras, para os donos da música e para quem ficou a lavar os copos no fim. E a festa, convenhamos, às vezes precisava mesmo de ser estragada. Não por ódio ao turismo, mas por pelo menos um pouco de amor à cidade. O turismo pode ser encontro, curiosidade, economia, recursos, circulação, aprendizagem, intercâmbio social de cultura, língua e tradição. O problema é quando passa a ser ocupação. Quando deixa de visitar e começa a substituir. Quando já não quer conhecer a cidade, mas consumi-la. Quando compra a diferença para a transformar e formatar em mais uma versão universal do mesmo: o mesmo brunch, o mesmo hotel, o mesmo néon, a mesma loja de sardinhas de luxo, o mesmo “conceito”, a mesma ausência de gente verdadeira.
Lisboa ainda não morreu, felizmente. Está bem viva. Seria demasiado melodramático dizer o contrário, e Lisboa continua linda, “gaita de chinela no pé”, embora sempre tenha detestado exageros e “mamarrachos” com vista para o Tejo. Mas está a ser empurrada para uma zona perigosa: a de se tornar bela sem ser habitável, famosa sem ser íntima, rentável sem ser justa, fotografada sem ser vivida. Este livro vê isso com humor negro, raiva civilizada e uma melancolia que nunca se deixa engordar pela pieguice. É um aviso, mas também uma pergunta: queremos uma cidade para morar ou uma cidade apenas para mostrar aos estrangeiros e turistas?
No fim, talvez a resposta esteja numa bica que ainda custa um euro, num velho mercado municipal onde a fruta é vendida a peso, numa rua que ninguém transformou ainda no “segredo mais bem guardado” de Lisboa, numa tasca onde o empregado não sorri para o Tripadvisor, mas ainda pergunta: “O costume?” É pouco? Talvez. Mas as cidades começam sempre por coisas pequenas. E acabam quando essas coisas pequenas deixam de ter lugar e de fazer sentido, como na nossa “sereia pequenina que nos guarda pelo mar”.
The Disenchantment of Lisbon — Lisbon is not cool anymore (A Reality Guide), de Alfredo Isaías, é publicado pela Inchas Editora, tem 155 páginas e custa 15 euros. Pode ser adquirido na livraria Palavra de Viajante, em Lisboa, e também online através da We Hate Tourism Tours. Leiam-no antes que alguém descubra que é autêntico e o transforme também em produto turístico.
Visao


